a DietA Banting

letter on corpulence

Desde a existência do Homo Sapiens, há 200 mil anos, a raça humana passou 95% do tempo com uma dieta a base de carne de caça e vegetais (nossos ancestrais do período paleolítico eram caçadores e coletores). O surgimento da agricultura, é recente na história dos seres humanos pois está presente há apenas 10 mil anos. Isto representa uma fração muito pequena da nossa existência. Respeitados paleontologistas, geneticistas e biólogos acreditam que nossos genes dificilmente sofreram mudanças desde o princípio da nossa existência.

Em meados do século 18, William Banting, incomodado com seu peso, que na época era em torno de 100kg, iniciou uma dieta orientada por médicos, no qual ele reduziu a quantidade de alimentos e aumentou a atividade física.

Estava mais ativo, sentia-se mais cansado, e não conseguia reduzir de peso. Foi então que seguiu a orientação de um cirurgião francês no qual aconselhou a cortar da dieta o açúcar e os carboidratos. Ele restringiu leite, açúcares, cerveja e pães. Ele perdeu tanto peso e sentiu-se tão bem que resolveu publicar sua experiência no documento chamado de “Letter on Corpulence Addressed to the Public”.

Banting entendeu que a causa da obesidade não eram as calorias, mas os carboidratos.

Este documento influenciou por mais de 100 anos à historia da medicina, sendo considerado como o primeiro livro sobre dieta (1). Devido a essa experiência de sucesso, a dieta “Banting” se tornou conhecida e referência para o tratamento da obesidade na maioria das escolas médicas européias e norte americanas da época.

Outros médicos também documentaram esses conceitos em livros que se tornaram referência na época. Por exemplo, Dr William Osler em 1882, fez uma monografia no qual dizia que comer alimentos ricos em gorduras era essencial para reduzir de peso. Outra referência importante,  Dr. Spock’s Baby and Child Care, a bíblia da Pediatria, também afirmava que  "o ganho e a perda de peso estava relacionado ao consumo de sobremesas e comidas ricas em carboidratos". Em 1963, Dr Passmore, escreveu no British Journal of Nutrition que “toda mulher sabe que carboidrato é engordante”. Esse conceitos eram bem difundidos, considerados até mesmo senso comum naquela época, e obesidade não era um problema. 

Ancel Keys

A teoria Lipídica

No início da década de 50, Ancel Benjamimn Keys, patologista da Universidade da Minnesota, defendia a hipótese de que o colesterol da dieta estaria relacionado a doença cardiovascular (2,3). Keys baseou-se em estudos de 1913, no qual o patologista russo Nikolaj Anitschkow, provocou lesões de aterosclesore em coelhos alimentados com gordura saturada (porém coelhos são herbívoros, não são geneticamente programados para se alimentar de gordura saturada). A partir desta época, estudar sobre as partículas de colesterol ficou "na moda" e diversos pesquisadores realizaram estudos testando gordura animal e vegetal, observando o impacto no colesterol do sangue.

 
A idéia de que o colesterol da dieta iria diretamente refletir o colesterol do sangue parecia intuitivamente plausível, certo? Errado!

Mesmo o pesquisador Ancel Keys, observou que independente da quantidade consumida de colesterol pelos voluntários nos seus estudos, o nível de colesterol no sangue não mudava. Até mesmo quantidade maiores como 3.000 mg/dia de colesterol (para se ter uma idéia, uma gema tem apenas 200mg de colesterol) não refletia em mudanças no colesterol do sangue.

Estudo dos sete países

Convencido da sua teoria, Keys apresentou o que ele chamou de “diet heart hypothesis” através do “The Seven Countries Study". Seus gráficos mostraram uma relação próxima entre consumo de gordura e taxas de morte por doença cardiovascular em 7 países(4). Entretanto ele omitiu o resultado de países que não mostravam os números que ele precisava para fortalecer sua teoria! 


Keys na época participava do comitê da Associação Americana de Cardiologia e com isto pode levar sua hipótese a essa entidade que acabou adotando-a. Ele se tornou o pesquisador mais influente no campo da dieta e da doença cardiovascular.

Então a partir desta época, o colesterol da dieta, e presumivelmente o do sangue, foi amplamente visto como o principal causador de doença cardíaca. 


Por fim em 1977, o governo americano, através das Diretrizes Dietéticas recomendou a população o consumo de uma dieta rica em carboidratos e pobre em gorduras, exatamente o oposto da dieta dos nossos ancestrais. Foi recomendado o consumo de 6 a 11 porções de grãos ao dia, além de permitir adicionar açúcar a dieta. Essas orientações foram adotados pela maioria dos países ocidentais. E isto acabou sendo um desastre para a saúde dos seres humanos. Coincidentemente desde o início da década de 1980, a incidência de obesidade e diabetes cresceu estrondosamente nesses países.