Por que engordamos

Teoria do Balanço calórico


A principal teoria da origem da obesidade é a chamada teoria do balanço calórico. É senso comum acreditar que é simplesmente uma questão de desequilíbrio entre as calorias consumidas e calorias gastas. Pergunte para qualquer pessoa é ele lhe dirá o seguinte: comer muito e se exercitar pouco engorda. Esta seria a equação da obesidade. Isto nos parece tão irrefutável, que nós nem questionamos outras possibilidades. A decisão de comermos mais ou de nos mexermos pouco, seria basicamente oriunda de uma escolha nossa. Em outras palavras, nosso comportamento glutão e/ou preguiçoso seria o culpado pelos quilos extras, e a obesidade seria uma escolha pessoal, ou melhor de uma falha pessoal.  
Segundo a lógica deste balanço calórico, tão logo você percebeu que estaria ganhado peso, bastaria reduzir um pouco as calorias e aumentar o gasto energético, com mais atividade física, que você ficaria ótimo outra vez. Ou ainda, quando nos mantemos estável no peso significa que estamos precisamente equilibrados com nossa ingesta e gasto calórico? Deveria ser, se a teoria funcionasse na prática. É difícil de acreditar que em algum momento conseguimos fazer este ajuste fino tão precisamente entre as calorias consumidas e gastas.

calories in and out misconceptions


No entanto na prática sabemos que não é assim que funciona. Só criar um déficit calórico não garante redução de peso. A aritmética do balanço calórico não estabelece uma diferença entre ganhar e perder peso, só diz que devemos igualar as calorias consumidas com as calorias gastas. Você sabe bem, que comer menos não resulta em perda de peso. Imagino que se você está lendo este texto é por que também chegou a esta conclusão. 

De todas as razões para questionar a idéia de que comer demais seria a causa da obesidade, a mais óbvia sempre foi o fato de que comer menos não a cura.

A maioria daquele que são gordos passa a maior parte da vida tentando comer menos e geralmente só obtém algum resultado a curto prazo. Comer menos, simplesmente não funciona durante mais do que alguns poucos meses, quando muito.

 

calorias


Mas afinal o que é caloria? É simplesmente uma unidade de medida. Representa a quantidade de energia necessária para elevar 1g de água a 1 grau de temperatura. Ou melhor, é a medida do calor liberado pela queima do alimento. A caloria é uma forma de padronizar os alimentos e achar um cociente em comum para poder compará-los entre si. No entanto você acha que só essa reação da queima do alimentos em laboratório importa para o nosso organismo?

Será que para o nosso corpo, todos os alimentos são iguais, exceto pela energia que eles liberam?
200 calorias

200 calorias

200 calorias

200 calorias

 

Além disso nós assumimos que o gasto calórico do nosso corpo é basicamente promovido pelo exercício. No entanto a maioria da energia gerada pelo nosso corpo é utilizada para manter a temperatura corporal e para as reações metabólicas. Este gasto basal de energia não é estável, e pode mudar em até 50%. Então esses conceitos de balanço de calorias estão mais do que errados no que diz respeito a origem da obesidade. E quando esta teoria, que é falha, falha, nós é quem carregamos a culpa por não ter dado certo. 

 

 

A influência dos hormônios:


Outro conceito muito comumente mal compreendido, é que o mecanismo de engordar não seria regulado por sistema nenhum. Sabemos que todos os processos do corpo são regulados por algum mecanismo metabólico. O crescimento é regulado pelo hormônio do crescimento. A glicose do sangue é regulada pela insulina e o glucagon; o sono é regulado pela melatonina e por aí vai…

Nós somos levados a acreditar que o simples fato de comer é o que nos faz engordar sem a interferência que qualquer outro mecanismo.

E o que determinaria a escolha dos alimentos que comemos seria simplesmente a nossa vontade e a fome seria um mero inconveniente. Porém nós já sabemos que isso não é verdade. Há um série de sistemas hormonais envolvidos no processo de decidir quando estamos com fome e o que iremos comer. Alguns exemplos de hormônios envolvidos no mecanismo direto e indireto da fome e saciedade são: a leptina, a grelina, a colecistoquinina, a insulina, o cortisol e etc.

Então, não é uma mera decisão consciente de quando e o quê devemos comer. Podemos dizer que é uma decisão muito mais hormonal.


Além disso, a representação de quanto pesa o nosso corpo funciona muito mais como um termostato do que como resultado do balanço de calorias. Existe uma tendência à inércia para que o corpo mantenha seu peso estável, não importando se você está gordo ou magro. 

termostato

Quando reduzimos nosso consumo de alimentos, o que acontece com nosso corpo? Ele simplesmente, por medidas de sobrevivência, reduz seu gasto de energia. Reduz a temperatura corporal, a pressão sanguínea, a freqüência cardíaca e assim reduz seu gasto energético para que mantenha todos os esforços necessários para não perder energia gratuita. Você entra num ciclo vicioso: você inicia reduzindo a ingesta de calorias da dieta, você perde um pouco de peso, daí o metabolismo reduz o gasto de energia, aumenta a fome e diminui a saciedade (através dos hormônios). O seu peso estabiliza e você acentua a restrição na dieta comendo cada vez menos. Você perde um pouco mais de peso, porém reduz ainda mais o gasto energético e a fome piora.  E assim segue neste ciclo até um ponto em que você não consegue mais tolerar a fome, os sintomas de restrição dos alimentos e o pobre resultado na balança. Resultado disso: seu peso retorna ao original, você fica frustrado e cheio de culpa. Nosso organismo é muito sábio e mobiliza todos os esforços para se manter equilibrado, mesmo que na frente do espelho possa não parecer. Quando voltamos a ingesta de antes, o organismo age através dos hormônios que regulam a fome e a saciedade. Ele aumenta a Grelina (hormônio da Fome) e diminui a colecistoquinina, o peptídeo YY (responsável pela saciedade). E esses hormônios farão com que você fique com fome e com vontade de comer mais. O corpo fica ávido por retornar aos parâmetros anteriores de nutrição e de metabolismo (independente se você estivesse obeso). Alguns estudos demonstraram que mesmo após um ano com o novo peso, o organismo ainda assim tentar retornar ao peso prévio a dieta (*). Isso lembra bem aquele efeito sanfona, né?

Reduzir a ingesta de calorias leva inevitavelmente a reduzir o gasto de energia.

E você também sabe bem disso. E o oposto também segue essa mesma linha. Se aumentarmos nossa ingesta de calorias, o corpo também ira aumentar seu gasto de energia para nos manter estável no peso atual.
Você pode perceber que engordar não tem nada a ver com preguiça, falta de vontade e sedentarismo. Tudo tem uma explicação hormonal. Os sintomas de fome, frio, cansaço e depressão, são reais e são ligados a dieta de restrição de calorias.

Se você foca a perda de peso somente pelo método de restrição de calorias, você estimulará que seu organismo tente desesperadamente, com todos seus recursos, retornar o seu peso anterior.

Só comer menos não resulta em perda de peso sustentável. Isto é triste pois muitos de nós acreditamos nisto, e o que é pior é que a grande maioria das nossas fontes confiáveis de saúde também acredita. 
Essa teoria do balanço calórico nós faz crer que falhamos na dieta, e assim carregamos a culpa por ter fracassado. Porém a culpa não é de quem se esforça, passa fome e vê todo seu peso retornar aos poucos. 


O que é importante enxergarmos é que existe sim uma correlação de fatos ocorrendo ao mesmo tempo, porém sem ter evidências de causa e efeito. Os gordos geralmente se exercitam pouco e tem pouco controle da fome e saciedade. Porém isto não significa dizer que isso tudo é a causa do problema, mas sim é conseqüência do cenário metabólico e hormonal de ganho de peso. 

A origem da obesidade está muito mais ligada a todos os fatores que por fim irão fazer com que os hormônios criem um ambiente desfavorável a queima de gorduras.


 E esses fatores estão ligados a certo tipos de alimentos, hormônios, doenças, medicamentos e situações do dia-a-dia.